A Noção de
Inconsciente Óptico
O conceito de inconsciente
óptico em Walter Benjamin, central para compreender as mudanças na
percepção e do sentir operadas pelas modernas expressões artísticas como a
fotografia e o cinema, e fundamental para compreender as alterações na experiência como uma operação estética, que
modela a nossa sensibilidade e à qual estamos ainda hoje permanentemente
sujeitos.

Embora o conceito de inconsciente
óptico seja o principal tema de abordagem no presente trabalho, não deixa
contudo de nos remeter para outros conceitos, também importantes, que são
objecto do ensaio “A obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica”. Com
estes novos conceitos, em teoria de arte, vem o autor chamar a atenção que alguns
dos conceitos que caracterizavam a obra de arte tradicional alteraram e a
percepção humana sofreu mudanças e rupturas profundas, em consequência do
crescimento e do carácter emancipatório dos nossos meios e da inovação
tecnológica, que introduziu a "reprodutibilidade técnica" acabando
por integrar a obra estética na esfera industrial da cultura.
Benjamin inicia este ensaio reflectindo inicialmente as
alterações que a reprodução técnica vem introduzir na obra de arte, ela coloca em
causa a sua autenticidade e a sua autoridade, vêm retirar-lhes a aura, o aqui e agora, mas vem trazer um
sentido renovador, libertador e revolucionário, pois liberta a obra de arte do
domínio da tradição, dando-lhe maior autonomia, e permitindo através da
reprodução uma maior deslocação da obra, substituindo o valor de culto pelo
valor expositivo, substituindo a dimensão estética pela dimensão espectacular, que
deixa de acontecer como ocorrência única e irrepetível para se tornar em
ocorrência em massa, permitindo ainda a sua permanente actualização.
O autor considera serem a fotografia e fundamentalmente o
cinema os meios, que por excelência representam a enorme ruptura criada pela
reprodução técnica, apresentando estas como as formas modernas de expressão
artística. O autor escolhe estas novas técnicas por considerar serem as que
mais perto estão da realidade, no sentido vitalista. Benjamin defende a tese do
geral e afasta a individuação, porque ele acredita que se as massas entraram na
história, elas estão ai, e portanto elas querem estar por dentro, as massas têm
um desejo apaixonado de aproximar as
coisas, com um novo modo de percepção e de aproximação sensorial, mais intensiva
e já afastado da tradicional atitude de contemplação.
Benjamin na altura em que escreve este ensaio, estava preocupado
em compreender e dar resposta à questão de qual o papel que as tecnologias
desempenharam na subida ao poder do nazismo, qual o poder que elas exerceram e
quais as razões desse enorme fascínio e encantamento produtivo e libertador sobre
as mentalidades e atitudes das massas.
No cinema, coincidem
as atitudes críticas e de fruição do público,
com esta ideia, Benjamin chama-nos à atenção para questões como o carácter de teste, a percepção ou apercepção, a interacção e a distracção que o cinema proporciona ao público. O carácter de teste
ou de examinação que acontece na altura da interacção do actor com a máquina e
depois a identificação do público com este. É na apercepção e noutros conceitos
desenvolvidos pelo pensamento de Freud como os lapsos, o inconsciente e as
pulsões, que Benjamin se vai apoiar para nos fazer compreender que no cinema, à
semelhança da apercepção, a forma como o conhecimento é apreendido através dos
sentidos e neste caso pela visão, além da acústica, ganha uma dimensão e uma
amplitude tal, que de uma forma insuspeita e inconsciente vem alterar a nossa
noção de real. A câmara de filmar à semelhança do inconsciente capta toda uma
série de informações que anteriormente se mantinham desapercebidas. Esta
percepção, diz Benjamin, é radicalmente diferente da que era captada pelo olho
humano, e diferente porque em vez de ser recebida de forma consciente, é agora
recebida de forma inconsciente. Esta nova forma de percepção e compreensão no
cinema são facilmente identificados na apresentação de pormenores, nas
aproximações, afastamentos, isolamentos, alongamentos, acelerações, ampliações,
reduções e acima de tudo vem explodir
o real, com a noção e com a nossa relação com o real. Uma das respostas que
Benjamin procurava está sem dúvida neste conceito que chamou de inconsciente óptico. O inconsciente
óptico é assim fruto de uma modificação, de uma preocupação de Benjamin e
também o recurso da análise que ele vinha desenvolvendo e que lhe interessava
concluir.
Este conceito não só foi importante para melhor
compreensão das novas expressões artísticas como tem vindo a ser muito estudado
no âmbito das recentes problemáticas do real e do virtual na nossa
contemporaneidade. O cinema produz assim uma imagem do real, segundas técnicas
novas. O cinema ao explodir o real através de uma velocidade, fragmentação e sequencialidade
desumana, não impede que nós o possamos receber e aceitar como se de real se
tratasse. Introduz-nos uma experiência que nos vai perturbar e que ao ser
questionada pelos nossos sentidos, muitas vezes de forma inconsciente, vai
influenciar o nosso real. Sempre que a estrutura do real é perturbada, vai
sofrer um choque, e por isso ela tem de ser novamente reajustada e assim vai
acontecer de forma repetida com novos choques e consecutivamente sendo
reajustada, assumindo aqui um papel revolucionário, segundo Benjamin, pois faz
surgir uma nova concepção desse mesmo real, mas eternamente revisitado.
O real
vai assim aparecer-nos também de forma multifacetada e fragmentada tal como no
inconsciente, como nos explicou Freud na sua teoria das pulsões. O cinema vai
permitir que o virtual se realize, enquanto no real isso não lhe é permitido,
ou seja que a imagem e o imaginário substituam o real.
Tal como o conceito de inconsciente óptico também o conceito de distração no cinema, que é uma atitude de distracção mas de
examinador, de alguém que conhece, de alguém que está permanentemente numa
posição em que pode criticar, criam em nós a possibilidade de uma reacção que
tende a um reequilíbrio e de não viver em tempo real, a diversão é também uma
desejada distorção que nos permite escapar à obrigatoriedade de sentido.
Alguns conceitos de Benjamin na actualidadeBenjamin verifica que é o modo como as pessoas se juntam que leva a alterar a forma de percepção, que leva a existir uma cultura específica para aquele tipo muito próprio de sociabilidade. A função política da arte surge de uma arte com raízes na experiência concreta, numa praxis que remete para a vida, para o quotidiano. Numa perspectiva diferente a Baudelaire, que apresentava a arte como um confronto entre a “impermanência do presente e o peso da eternidade”, Benjamin coloca a obra de arte como um espaço onde o apelo ao pensamento moderno está sempre presente, no sentido em que além de provocar um desafio à convenção e ao valor do passado, estabelece uma ligação produtiva e permanente ao presente (Giovanna Borradori, 2003).
A primazia do valor expositivo ao valor cultural altera profundamente a relação da obra de arte com o público, deslocando a centralidade da obra de arte, até então no objecto em si, e transferindo esta para o seu carácter expositivo. O importante já não é os objectos artísticos, mas as relações que os mesmos estabelecem connosco. A arte escapa ao objecto, confirmando assim um possível sentido político á arte.
A técnica introduzindo novos media na experiência, põe em crise os processos de transmissão da posse, políticos e artísticos. A obra de arte, ao deslocar-se a caminho dos indivíduos, aumenta o seu poder, tornando-se irrecusável, intrometendo-se quer na esfera da experiência individual, quer na própria vida colectiva, onde passa a ser vista como um medium de intervenção social.
Os novos caminhos então abertos pelas artes, principalmente a partir das rupturas às vanguardas formalistas nas décadas de 60 e 70 do século XX, são um exemplo claro de lucidez e de esperança que este texto de Benjamin já continha, acerca de uma arte que escapando às amarras da aura, abriu-se a novos dispositivos técnicos, que exigiram uma nova modelação dos regimes de recepção, introduzindo alterações nos factores tempo e atenção, e consequentemente a uma nova sociabilidade na relação da arte com um público, ávido por estes novos meios colocados à disposição da criação e da fruição artística. Estes aparatos técnicos como o cinema e o vídeo introduziram a necessidade de uma nova reflexão sobre novos conceito nas artes contemporâneas que é a duração.
Embora não seja já o cinema o centro das transformações das novas formas do modo de percepção na arte, continua no entanto a ser pertinente chamar a atenção, como Benjamin o fez ao escrever este texto, para a importância da alteração do medium que continua a ser central nas artes. Agora com aparecimento de novos meios e tecnologias de comunicação, mais precisamente pelas tecnologias digitais audiovisuais, cujos contornos e importância na alteração da criação artística ainda não são bem visíveis, mesmo que não nos situemos já numa época pós-arte técnica como alguns críticos defendem.
Obra Citada: BENJAMIN, WALTER, “A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica” (Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit – 1936-39); Tradução de Maria Luz Moita; in “Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política”; Introdução de T.W.Adorno; Relógio d´Água Editores, 1992
Francisco Palma, Dezembro 2003-2007