quinta-feira, 20 de junho de 2024

Arte em teoria: uma antologia de estética

 Arte em teoria: uma antologia de estética

Vítor Moura

 No REPOSITÓRIUM da Biblioteca da UNIVERSIDADE DOMINHO. Centro de Estudos Humanísticos (CEHUM) temos acesso aberto a uma publicação que tem como título Arte em teoria: uma antologia de estética da autoria de Vitor Moura.

Acesso ao registo da antologia

Acesso à antologia  

Resumo da Introdução

    «O conceito de “arte” é, tradicionalmente, muito difícil de classificar. Ao longo de séculos de reflexão sobre a grande variedade de matérias que habitualmente designamos através desse termo, a sua compreensão foi sofrendo oscilações muito significativas. Tal foi motivado, desde logo, pela própria mutação do fenómeno artístico, impulsionado frequentemente pelo desejo de se emancipar das etiquetas que lhe eram filosoficamente atribuídas. A tal ponto que, se não fosse por auto -contradição, poderia defender -se que a prática artística é sempre, por definição, contrária à sua própria definição.

    Esta antologia apresenta alguns textos emblemáticos das mais consequentes e relevantes tentativas de explicação do fenómeno artístico. Compõe -se, em primeiro lugar, de um conjunto de três textos oriundos, respetivamente, de cada uma das três variantes das teorias baseadas sobre o objecto de arte, a saber, as teorias essencialistas do representacionalismo (Nelson Goodman), expressionismo (R.G. Collingwood) e formalismo (Roger Fry). Um segundo núcleo, composto pelo texto de Edward Bullough, exemplifica o tipo de explicação psicológica centrada sobre o sujeito. O último grupo é dedicado às teorias da identificação da arte e é composto pelo texto de George Dickie sobre a teoria institucional e o texto em) que Jerrold Levinson descreve a sua teoria da definição histórica da arte. 

(…)»

 

Textos:

·         Como os edifícios representam Nelson Goodman 

·         A arte autêntica como expressão R. G. Collingwood 

·         Um ensaio de estética Roger Fry 

·         A “Distância Psíquica” como um factor na arte e um princípio estético Edward Bullough 

·         A teoria institucional da arte George Dickie 

·         Refinando historicamente a arte Jerrold Levinson 

Semiologia e Semiótica - O signo estético na arte

 

Semiologia e Semiótica 

Tanto o termo semiótica quanto o termo semiologia têm as raízes de suas constituintes iniciais e principiais nas palavras gregas semeîon, ‘signo’, e sema, ‘sinal’, ‘signo’. Tal como a gramática e a aritmética ou a biologia e a filologia, que são campos de estudos de diversas áreas de conhecimento humano, a semiótica e a semiologia, nas suas origens, são os campos de estudo dos signos e dos sinais.

… podendo ser consideradas como ciências do Homem e da Comunicação



                        




SEMIOLOGIA/SEMIÓTICA é o estudo dos signos

O estudo dos signos ganhou uma grande importância na área da comunicação. 

A semiologia serviu de base para o estruturalismo no século XX. Tradição linguística e filosófica. De duas faces: significante/significado (em Saussure) ou de face única em que um significante remete para outro significante numa cadeia sígnica interminável. Em Pierce é triádica (signo, objeto, interpretante).

Semiologia (Europeus)

Acto sémico entendido como facto social que estabelece, através do circuito da fala, uma relação entre dois indivíduos – psicologia social.
O espaço da semiologia tem limites e depois há objectos semiotizados
 - entidade psíquica de duas faces que se condicionam
(obj) tradição linguística e outros domínios da cultura.

Ferdinand de Saussure (1857-1913) foi um linguista e filósofo suíço, seu pensamento exerceu grande influência sobre o campo da teoria da literatura e dos estudos culturais e fundou a semiologia,

Obra: Curso de Linguística Geral, publicado em 2016. 1896 - Professor titular em Genebra. 1907 – 1º Curso LG. 1908-1909 – 2º Curso LG. 1910-1911 – 3º Curso LG.



Semiótica (Anglo-Saxónicos)

 - Interpretação do signo onde apenas exige um individuo: o interprete
 - Sem limites….tudo é integrado no espaço da semiose
 - processo de mediação e abre para uma ideia de infinitude
(obj) tradição lógica/filosófica – estudam o papel da linguagem no conhecimento – teoria geral dos signos


Para Pierce, “todo pensamento é um signo”, assim como o próprio homem. “Em qualquer momento, o homem é um pensamento, e como o pensamento é uma espécie de símbolo, a resposta geral à questão: Que é o homem? – é que ele é um símbolo” (idem). A semiótica, portanto, estuda os signos e como eles se relacionam. Mas o que é um signo?

Signo ou Representamen é aquilo que, sob certo aspecto ou modo, representa algo para alguém. Dirige-se a alguém, isto é, cria, na mente dessa pessoa, um signo equivalente, ou talvez um signo mais desenvolvido. Ao signo assim criado denomino interpretante do primeiro signo. O signo representa alguma coisa, seu objeto. Representa esse objeto não em todos os seus aspectos, mas com referência a um tipo de ideia que eu, por vezes, denominei fundamento do representâmen. (1977, p. 46)

Um Signo/Representamen é qualquer coisa que está relacionada a uma segunda coisa, seu Objeto, com respeito a uma Qualidade, de tal modo a trazer uma Terceira coisa, seu Interpretante, para uma relação com o mesmo objeto, e isso de maneira tal a trazer uma Quarta para uma relação com aquele Objeto da mesma forma, ad infinitum. Se a série é rompida, o Signo, nesse ponto, perde seu caráter significante perfeito. (Peirce apud Santaella, 1995, p. 29).


Charles Sanders Peirce (1839-1914) foi um filósofo, pedagogista, cientista, linguista e matemático americano. Seus trabalhos apresentam importantes contribuições à lógica, matemática, filosofia e, principalmente à semiótica (termo utilizado pela 1ªvez por Henry Stubbes em 1676). Obra: SEMIÓTICA - Pierce, Charles S., Editora Perspectiva, 2010


Grupos de Signos (Pierce):  

Ícone – analogia/semelhantes ao seu objecto. Fotografia. WC(H/M). Galope de um cavalo, perfume sintético de brinquedos infantis.

Indíce - fisicamente relacionados causal/contingente com o seu objecto. Palidez-fadiga. Mapa. Fumo-fogo. Espirro-constipado. Pegada.

Símbolo - arbitrariamente relacionados com o seu objecto através de uma convenção. Sistemas sígnico de convenções : Palavras e números. Bandeiras. Pomba-paz


Critica :

Um ícone (imagem) pode ter convenção…regras representativas convencionais.

O índice pode ter uma dimensão icónica: pegadas

O símbolo pode ter ícones… onomatopeias (cocorococo).

 Anéis das bandeiras olímpicas (olimp/cinco continentes e países)






terça-feira, 16 de novembro de 2021

O espectáculo em Debord

 

Qual a diferença entre o espectáculo vulgar e o espectáculo em Debord?

 

Ao falar de espectáculo não nos referimos apenas às chamadas «artes do espectáculo», que compreendem as tradicionais artes de palco, e que se separavam em géneros distintos como a ópera, o teatro, a dança ou a música. Hoje o espectáculo compreende e integra diversos géneros de expressão e utiliza diversas tecnologias e meios audiovisuais, tendo apenas em comum a representação ou actuação pública como as «performing arts» e «happenings». O espectáculo é caracterizado pela plenitude do fascínio, é o envolvimento pela paixão, pela magia, é o entretenimento, é simulação, é representação. No espectáculo o espectador tem um tempo diferente da realidade. O desenrolar da representação não nos vai afectar, está distante. Não tem consequências imediatas em nós. No espectáculo existe uma falha entre o que apresenta e o que é representado. Não há imediatismo. Pressupõe a distância e a separação entre o espectáculo e o espectador.

A chamada Escola de Frankfurt, da qual fizeram parte um grupo de pensadores que, nos anos 40 do sec.XX, estiveram na primeira linha da reflexão crítica sobre os principais aspectos da economia, da sociedade, da cultura do seu tempo, e que obviamente integrava a critica ao espectáculo contemporâneo. Com base em conceitos marxistas, eles avançaram com algumas teses importantes para a compreensão do papel do impacto que alguns dos novos espectáculos, como o cinema e a televisão, tiveram nas massas. A industrialização da arte e da cultura, traz consigo a inevitável banalização e a perda da aura, esta uma tese que Walter Benjamin apresentou, como resultado da sua reflexão sobre as consequências da possibilidade técnica da reprodução das obras de arte. Este autor alertou também para o enorme fascínio e encantamento produtivo e libertador que as novas tecnologias oferecem às massas, ávidas de diversão. Adorno e Horkheimer analisaram a cultura mediática, apreendida como máquina que destrói a razão, que retira a autonomia ao pensamento, que estigmatiza, produtora de um estereótipo, resultado da imposição das indústrias culturais. Denunciaram o perigo da fusão da cultura com o espectáculo e de entretenimento industrializado e a sua tendência para servir como objecto de alienação, estandardização e manipulação das consciências pelo poder. Mais tarde Habermas analisou a transformação da cultura em bens de consumo, resultando numa atitude acrítica do público, transformando-se este num consumidor passivo destes bens culturais, ou seja uma cultura com tendência à integração social e à “despolitização das massas”eliminando a opinião e discussão politica e pública das coisas práticas.

A política de sedução espectacular, segundo Gilles Lipovetsky, oculta os problemas de fundo, substituindo a discussão dos problemas reais que se vão reflectir no seu cootidiano, por um discurso à volta do encanto das personagens, das imagens, dos comportamentos, da simpatia, em busca dos sentimentos e das afecções. Os cidadãos deixam de ter uma atitude de exigência, e são manipulados pelo espectáculo da política do show das imagens, do divertimento, do humor, do marketing político, das sondagens e das opiniões espectaculares que se vão pulverizando por toda a sociedade. 

Guy Debord, um dos principais críticos e pensadores, integrado na Internacional Situacionista (1957-1972), escreveu um dos mais importantes textos críticos do século XX, “A Sociedade do Espectáculo”, um texto que assume uma posição crítica do espectáculo, não o espectáculo vulgar mas o espectáculo como real. Chama a actual sociedade de espectaculista , segundo este autor o que interessa hoje na sociedade não é o fim a atingir, mas apenas pretende realizar o percurso no sentido de si próprio. Debord, quando assume uma posição critica da sociedade, não se resume apenas ao espaço da arte, do entretenimento, da diversão, da cultura, da política ou o espaço público, ele denuncia a alienação generalizada introduzida por esta pseudo-cultura espectacular em todas as áreas da sociedade. O espectáculo para Debord, é muito mais do que a simples contemplação e prazer imediato.

Se o espectáculo é fascínio, representação, simulação e anunciação, para Debord ele é algo que não é imediato. O espectáculo é simulação porque é artificial, é representação porque não é momento, é fascínio porque desperta o desejo e as paixões. O espectáculo para Debord não é da ordem da visão, mas da vida, não é produto dos media, nem da publicidade, ele é acima de tudo uma forma de ver o mundo que se objectivou. O espectáculo dá uma imagem do real e é real.


No seu texto “ A sociedade do espectáculo” Guy Debord apresenta dois tipos de espectáculo, o concentrado, onde o autor diz que podemos identificar a ideologia de quem tem poder, quem tem os meios, característico dos estados totalitários, e o espectáculo difuso, que incita as massas a fazer uma livre escolha entre uma grande variedade de novas mercadorias, tendo como exemplo a americanização do mundo. Posteriormente no seu texto de “Comentários sobre a Sociedade do Espectáculo” Guy Debord apresenta um outro tipo de espectáculo a que dá o nome de espectáculo integrado e que consiste na fusão do difuso e do concentrado, com base no primeiro que segundo o autor foi o que mais se impôs, e que tem a tendência de vir a impor-se mundialmente e acabou por se misturar amplamente com toda a realidade. Este último, segundo Debord, caracteriza-se pela “renovação tecnológica incessante; fusão económico-estatal; segredo generalizado; o falso sem réplica; um presente perpétuo.”, o segundo tópico é aquele que mais se manifesta na actualidade.

Na actual sociedade, segundo Debord, tudo é transformado em espectáculo, é o espectáculo da política, é o espectáculo da arte, defende Debord, “O espectáculo em geral, como inversão concreta da vida…”.  O espectáculo torna-se o factor de dominação económica, cultural, social e politica da actual sociedade. Mistura-se a cultura e a economia.

O mundo desdobra-se num mundo de imagens num pseudo mundo, numa construção. O espectador assiste passivamente e torna-se um consumidor acrítico de uma construção que ele realizou. Nós somos os espectadores de qualquer coisa que não reconhecemos mas aceitamos. Debord acredita que ou somos produtores ou espectadores. Um recebe outro produz imagens. Governados e governantes. Passivos e activos.

Para Guy Debord a representatividade espectacular deve ser substituída pela situação, “ela é o tempo e o momento”. Debord propõe a criação de rupturas permanentes, de situações, com a introdução de experiências novas nos sistemas. Criar novos aspectos vitais nas relações com a sociedade, a procura do efeito do imediatismo, da vida é o objectivo dos situacionistas. Dois dos conceitos e práticas mais importantes introduzidos pelos situacionistas e particularmente por Debord foram o conceito de deriva, de perder-se nos labirintos da cidade, e ao mesmo tempo criar novas situações onde o ser humano habitasse, este o conceito de desvio. Debord defende um pensamento que apela ao realismo, ao vitalismo, apela à situação do vivido, do real e do global. Propõe uma arte de afirmação de situações do presente. Debord afirma que o presente não pode ser apenas reduzido a uma estetização da vida.

Nenhum pensador antes tinha afirmado de uma forma tão clara e explosiva que a única solução seria recorrer ao vitalismo, à vida, ao momento e à situação como forma de ruptura. Debord recusa o pensamento da negatividade. Debord vem dizer-nos que a sociedade do espectáculo é a impossibilidade de se viver a realidade do quotidiano como uma experiência particular, unitária e em liberdade, pressupondo uma imagem global. No entanto, Debord deixa-nos algumas questões em aberto: será que é possível hoje ter uma imagem global como antítese da realidade e que toda a representação implicará dizer não à vida; será que alguém poderá escapar ao mundo e ao espectáculo.

Francisco Palma,

Janeiro 2004

 

Novos Conceitos de Arte

 

A Noção de Inconsciente Óptico

 O conceito de inconsciente óptico em Walter Benjamin, central para compreender as mudanças na percepção e do sentir operadas pelas modernas expressões artísticas como a fotografia e o cinema, e fundamental para compreender as alterações na experiência como uma operação estética, que modela a nossa sensibilidade e à qual estamos ainda hoje permanentemente sujeitos.

Embora o conceito de inconsciente óptico seja o principal tema de abordagem no presente trabalho, não deixa contudo de nos remeter para outros conceitos, também importantes, que são objecto do ensaio “A obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica”. Com estes novos conceitos, em teoria de arte, vem o autor chamar a atenção que alguns dos conceitos que caracterizavam a obra de arte tradicional alteraram e a percepção humana sofreu mudanças e rupturas profundas, em consequência do crescimento e do carácter emancipatório dos nossos meios e da inovação tecnológica, que introduziu a "reprodutibilidade técnica" acabando por integrar a obra estética na esfera industrial da cultura.


Benjamin inicia este ensaio reflectindo inicialmente as alterações que a reprodução técnica vem introduzir na obra de arte, ela coloca em causa a sua autenticidade e a sua autoridade, vêm retirar-lhes a aura, o aqui e agora, mas vem trazer um sentido renovador, libertador e revolucionário, pois liberta a obra de arte do domínio da tradição, dando-lhe maior autonomia, e permitindo através da reprodução uma maior deslocação da obra, substituindo o valor de culto pelo valor expositivo, substituindo a dimensão estética pela dimensão espectacular, que deixa de acontecer como ocorrência única e irrepetível para se tornar em ocorrência em massa, permitindo ainda a sua permanente actualização.

O autor considera serem a fotografia e fundamentalmente o cinema os meios, que por excelência representam a enorme ruptura criada pela reprodução técnica, apresentando estas como as formas modernas de expressão artística. O autor escolhe estas novas técnicas por considerar serem as que mais perto estão da realidade, no sentido vitalista. Benjamin defende a tese do geral e afasta a individuação, porque ele acredita que se as massas entraram na história, elas estão ai, e portanto elas querem estar por dentro, as massas têm um desejo apaixonado de aproximar as coisas, com um novo modo de percepção e de aproximação sensorial, mais intensiva e já afastado da tradicional atitude de contemplação.

Benjamin na altura em que escreve este ensaio, estava preocupado em compreender e dar resposta à questão de qual o papel que as tecnologias desempenharam na subida ao poder do nazismo, qual o poder que elas exerceram e quais as razões desse enorme fascínio e encantamento produtivo e libertador sobre as mentalidades e atitudes das massas.

No cinema, coincidem as atitudes críticas e de fruição do público, com esta ideia, Benjamin chama-nos à atenção para questões como o carácter de teste, a percepção ou apercepção, a interacção e a distracção que o cinema proporciona ao público. O carácter de teste ou de examinação que acontece na altura da interacção do actor com a máquina e depois a identificação do público com este. É na apercepção e noutros conceitos desenvolvidos pelo pensamento de Freud como os lapsos, o inconsciente e as pulsões, que Benjamin se vai apoiar para nos fazer compreender que no cinema, à semelhança da apercepção, a forma como o conhecimento é apreendido através dos sentidos e neste caso pela visão, além da acústica, ganha uma dimensão e uma amplitude tal, que de uma forma insuspeita e inconsciente vem alterar a nossa noção de real. A câmara de filmar à semelhança do inconsciente capta toda uma série de informações que anteriormente se mantinham desapercebidas. Esta percepção, diz Benjamin, é radicalmente diferente da que era captada pelo olho humano, e diferente porque em vez de ser recebida de forma consciente, é agora recebida de forma inconsciente. Esta nova forma de percepção e compreensão no cinema são facilmente identificados na apresentação de pormenores, nas aproximações, afastamentos, isolamentos, alongamentos, acelerações, ampliações, reduções e acima de tudo vem explodir o real, com a noção e com a nossa relação com o real. Uma das respostas que Benjamin procurava está sem dúvida neste conceito que chamou de inconsciente óptico. O inconsciente óptico é assim fruto de uma modificação, de uma preocupação de Benjamin e também o recurso da análise que ele vinha desenvolvendo e que lhe interessava concluir. 

Este conceito não só foi importante para melhor compreensão das novas expressões artísticas como tem vindo a ser muito estudado no âmbito das recentes problemáticas do real e do virtual na nossa contemporaneidade. O cinema produz assim uma imagem do real, segundas técnicas novas. O cinema ao explodir o real através de uma velocidade, fragmentação e sequencialidade desumana, não impede que nós o possamos receber e aceitar como se de real se tratasse. Introduz-nos uma experiência que nos vai perturbar e que ao ser questionada pelos nossos sentidos, muitas vezes de forma inconsciente, vai influenciar o nosso real. Sempre que a estrutura do real é perturbada, vai sofrer um choque, e por isso ela tem de ser novamente reajustada e assim vai acontecer de forma repetida com novos choques e consecutivamente sendo reajustada, assumindo aqui um papel revolucionário, segundo Benjamin, pois faz surgir uma nova concepção desse mesmo real, mas eternamente revisitado.

O real vai assim aparecer-nos também de forma multifacetada e fragmentada tal como no inconsciente, como nos explicou Freud na sua teoria das pulsões. O cinema vai permitir que o virtual se realize, enquanto no real isso não lhe é permitido, ou seja que a imagem e o imaginário substituam o real.

Tal como o conceito de inconsciente óptico também o conceito de distração no cinema, que é uma atitude de distracção mas de examinador, de alguém que conhece, de alguém que está permanentemente numa posição em que pode criticar, criam em nós a possibilidade de uma reacção que tende a um reequilíbrio e de não viver em tempo real, a diversão é também uma desejada distorção que nos permite escapar à obrigatoriedade de sentido.


Alguns conceitos de Benjamin na actualidade

Benjamin verifica que é o modo como as pessoas se juntam que leva a alterar a forma de percepção, que leva a existir uma cultura específica para aquele tipo muito próprio de sociabilidade. A função política da arte surge de uma arte com raízes na experiência concreta, numa praxis que remete para a vida, para o quotidiano. Numa perspectiva diferente a Baudelaire, que apresentava a arte como um confronto entre a “impermanência do presente e o peso da eternidade”, Benjamin coloca a obra de arte como um espaço onde o apelo ao pensamento moderno está sempre presente, no sentido em que além de provocar um desafio à convenção e ao valor do passado, estabelece uma ligação produtiva e permanente ao presente (Giovanna Borradori, 2003).

A primazia do valor expositivo ao valor cultural altera profundamente a relação da obra de arte com o público, deslocando a centralidade da obra de arte, até então no objecto em si, e transferindo esta para o seu carácter expositivo. O importante já não é os objectos artísticos, mas as relações que os mesmos estabelecem connosco. A arte escapa ao objecto, confirmando assim um possível sentido político á arte.

A técnica introduzindo novos media na experiência, põe em crise os processos de transmissão da posse, políticos e artísticos. A obra de arte, ao deslocar-se a caminho dos indivíduos, aumenta o seu poder, tornando-se irrecusável, intrometendo-se quer na esfera da experiência individual, quer na própria vida colectiva, onde passa a ser vista como um medium de intervenção social.

Os novos caminhos então abertos pelas artes, principalmente a partir das rupturas às vanguardas formalistas nas décadas de 60 e 70 do século XX, são um exemplo claro de lucidez e de esperança que este texto de Benjamin já continha, acerca de uma arte que escapando às amarras da aura, abriu-se a novos dispositivos técnicos, que exigiram uma nova modelação dos regimes de recepção, introduzindo alterações nos factores tempo e atenção, e consequentemente a uma nova sociabilidade na relação da arte com um público, ávido por estes novos meios colocados à disposição da criação e da fruição artística. Estes aparatos técnicos como o cinema e o vídeo introduziram a necessidade de uma nova reflexão sobre novos conceito nas artes contemporâneas que é a duração.

Embora não seja já o cinema o centro das transformações das novas formas do modo de percepção na arte, continua no entanto a ser pertinente chamar a atenção, como Benjamin o fez ao escrever este texto, para a importância da alteração do medium que continua a ser central nas artes. Agora com aparecimento de novos meios e tecnologias de comunicação, mais precisamente pelas tecnologias digitais audiovisuais, cujos contornos e importância na alteração da criação artística ainda não são bem visíveis, mesmo que não nos situemos já numa época pós-arte técnica como alguns críticos defendem.





Obra Citada: BENJAMIN, WALTER, “A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica” (Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit – 1936-39); Tradução de Maria Luz Moita; in “Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política”; Introdução de T.W.Adorno; Relógio d´Água Editores, 1992



Francisco Palma, Dezembro 2003-2007

Transmutação na obra de arte

 

Transmutação na obra de arte 

Francisco Palma, 2003

  

 

“…a questão está em saber que tipos de objectos trans-estéticos podem suceder a esta ruptura introduzida por Duchamp, sem voltar a cair na nostalgia do objecto perdido da pintura”.

Jean Baudrillard

 

Marchel Duchamp deu os seus primeiros passos de artista, como pintor, nos inícios do século XX em Paris. Viveu e acompanhou com intensidade, uma época e um ambiente que foi marcada pela afirmação dos impressionistas, dos fauves e dos simbolistas e o inicio dos cubistas, por todos eles Duchamp se interessou e se aproximou, vindo no entanto a integrar mais tarde o grupo dos dadaistas. Revelou desde muito cedo ser uma personagem incómoda e irreverente, sendo ainda difícil classificar a sua obra artística. De forma enigmática deixou-nos a dúvida se a sua intenção foi provocar, divertir-se, criar rupturas, incomodar, ser irónico, jogador ou se pretendia realmente, como veio a ser, um premonitor consciente do percurso e preocupações que a arte levantou durante todo o século XX até aos nossos dias, ou seja o autor de um programa artístico que ainda está por cumprir. Talvez as duas coisas. Depois de lermos algumas das entrevistas, intervenções ou textos que nos deixou, fica-se com a sensação que pouca coisa aconteceu nas artes depois dele, pelo menos em termos de grandes paradigmas, principalmente se tivermos como referência a arte actual.

Marchel Duchamp antecipa em 1913, um dos movimentos mais importantes do inicio do seculo XX - o movimento DADA (que teve inicio em 1916), com alguns projectos e trabalhos onde introduz novos “processos” de criação artística, reduzindo a obra de arte a objecto e a conceito. Estabelece a relação de objectos com a experiência da vida de todos os dias, a que chama de readymades[i], os quais Duchamp re-utiliza, através de uma escolha e confere-lhes a possibilidade de provocar uma experiência estética. Os novos processos criativos passam por novos conceitos de criação artística, o acaso[ii], a escolha[iii] e a ironia criam novos efeitos e maior ambiguidade na arte, provocando desambientação, banalidade e casualidade. Estes novos conceitos, influenciaram muita da arte que se fez no decorrer do século XX, mas de uma forma mais marcante nos movimentos artísticos que eclodiram a partir da década de 60, como a Optical Art, New Dada, Arte Conceptual, a Arte Pobre, a Minimal Art e a Pop Art, entre outros.

A ruptura com a arte retiniana e as novas reflexões sobre uma arte diferente da que se fazia até então, são uma constante, na actividade sua artística, através das suas obras e principalmente com as suas ideias e atitudes. Introduz novos conceitos, o nonsense e o acaso passam a ser algumas das linhas mestras do acto criativo em Duchamp. No entanto Duchamp também questiona algumas das ideias consideradas como verdades absolutas da arte, e uma delas é a ideia que se tinha até então, da preponderância do papel do artista na criação artística. Marchel Duchamp demarca-se desta ideia e tenta formular uma resposta diferente para esta questão, que é a de saber, qual o papel que o espectador e o artista desempenham no processo criativo.

Marchel Duchamp considera o julgamento, que em última instância, é realizada pelo espectador na obra de arte como obra-prima é aleatória e frágil, e é fruto de “uma moda baseada num gosto momentâneo [iv]. Se por um lado, Marchel Duchamp, não concorda que o espectador através de uma apreciação de acaso ou de uma paixão passageira, acabe por conferir a posteridade à obra de arte, ele também não ignora a importância cada vez maior que o espectador tem em descobrir, revelar, validar e legitimar a obra de arte no meio artístico onde ela se insere. É neste contexto que o autor afirmou, de uma forma polémica, dar “tanta importância àquele que a olha como àquele que a faz”.[v]

Marchel Duchamp defende que o artista não controla o processo criativo[vi], afirmando mesmo não acreditar “na função criativa do artista…”. Diz que o artista“…é um homem como qualquer outro. A sua ocupação é fazer certas coisas...”, acrescentando ironicamente que “…o homem de negócios também faz certas coisas…[vii]. O espectador ao decifrar e interpretar a obra enriquece o acto criativo. O acto criativo adquire um outro aspecto, quando o espectador experiencia o fenómeno, a que Duchamp chama de transmutação. A obra de arte é um aparato de signos que só o observador pode por em movimento[viii], portanto“é o espectador quem faz a obra”. O significado de uma obra de arte reside não na sua origem, mas na sua destinação.[ix]

Duchamp sempre aceitou todas as interpretações que fizeram da sua obra, “mesmo as mais fantasiosas, pois interessavam-lhe como criações das pessoas que as formulavam”[x]. A importância que Duchamp conferia ao espectador, não é a de o convidar apenas a interpretar as obras de arte mas também a completá-las e sobretudo a aceitá-las como arte. A importância deste elemento no processo criativo, é importante não só a Duchamp como teórico mas também ao Duchamp enquanto artista.

No fundo o que Duchamp pretende é colocar, como refere António Rodrigues, “a obra à procura do seu autor”[xi]. E ao propor esta nova formulação sobre o papel do espectador, Duchamp parece estar interessado, por um lado na distanciação em relação à obra de arte, e por outro lado na atitude que o espectador deve ter em relação a ela.

Duchamp ao considerar a importância do acaso factual na atitude do espectador, liberta a obra de arte da obrigatoriedade da construção de um sentido lógico, ou seja um anti-sentido, um nonsense, que muito interessava a Duchamp, podendo assim ser compreendido como um convite à participação do espectador, escolhendo a leitura que lhe interessar, de forma que as obras de arte se constituam como verdadeiras “obras abertas”[xii].



[i][1] José A. Bragança de Miranda, O design como problema, “…a estratégia de Duchamp acerca do ready-made… Duchamp faz circular uma… forma de ligação, a da vida na sua totalidade. Esta é a razão porque, para ele, «Eros c’est la vie». A arte… permite o «maravilhamento» da vida, sem a chegar a tocar”. http://www.interact.com.pt/interact10/ensaio/ensaio3.html.
[ii][2] O maior expoente da utilização deste processo de criação foi Hans Arp, com uma obra datada de 1916 e chamada de ”Colagem de recortes dispostos segundo a lei do acaso”, in História de Arte Contemporânea, Renato deFusco, Estampa, 1983, p.304.
[iii][3] Processo utilizado por Duchamp na conhecida obra Fontaine em 1917, e que ficou conhecido por Ready made, termo utilizado para designar, objectos fabricados ligeiramente alterados, como obras de arte. 
[iv][4] Marchel Duchamp, Engenheiro do Templo Perdido-Entrevistas com Pierre Cabanne, Ed.A.Alvim, p.p.110-111
[v][5] ibidem
[vi][6] “Durante o acto da criação, o artista vai da criação à realização, passando por um meandro de reacções totalmente subjectivas. A luta em direcção á realização é uma série de esforços, de angústias, de satisfações, de rejeições, de decisões que não podem nem devem ser tomadas conscientes, pelo menos no plano estético. O resultado dessa luta é uma diferença entre a intenção e a realização, diferença da qual o artista não é de modo nenhum consciente” Citado por (Processo criativo, intervenção de Marchel Duchamp, (Intervenção na FAAH, 1957, in Duchamp du Signe, p.188), Prosfácio in Marchel Duchamp, Engenheiro do Templo Perdido-Entrevistas com Pierre Cabanne, A.Alvim, p.212 .
[vii][7] Marchel Duchamp, Engenheiro do Templo Perdido-Entrevistas com Pierre Cabanne, Ed.A.Alvim, p.22
[viii][8] ibidem
[ix][9] Sherry Levine, in G.Celant, inexpressionism.
[x][10] Duchamp, Edições Taschen, 1996, p.8
[xi][11] Prosfácio in Marchel Duchamp, Engenheiro do Templo Perdido-Entrevistas com Pierre Cabanne, A.Alvim,
[xii][12] Conceito utilizado mais tarde por Umberto Eco no livro “Obra Aberta”.

Arte em teoria: uma antologia de estética

  Arte em teoria: uma antologia de estética Vítor Moura   No  REPOSITÓRIUM  da Biblioteca da  UNIVERSIDADE DOMINHO . Centro de Estudos Hum...