Qual a diferença
entre o espectáculo vulgar e o espectáculo em Debord?
Ao falar de espectáculo não nos referimos apenas às chamadas «artes do espectáculo», que compreendem as tradicionais artes de palco, e que se separavam em géneros distintos como a ópera, o teatro, a dança ou a música. Hoje o espectáculo compreende e integra diversos géneros de expressão e utiliza diversas tecnologias e meios audiovisuais, tendo apenas em comum a representação ou actuação pública como as «performing arts» e «happenings». O espectáculo é caracterizado pela plenitude do fascínio, é o envolvimento pela paixão, pela magia, é o entretenimento, é simulação, é representação. No espectáculo o espectador tem um tempo diferente da realidade. O desenrolar da representação não nos vai afectar, está distante. Não tem consequências imediatas em nós. No espectáculo existe uma falha entre o que apresenta e o que é representado. Não há imediatismo. Pressupõe a distância e a separação entre o espectáculo e o espectador.
A chamada Escola de Frankfurt, da qual fizeram parte um grupo de pensadores que, nos anos 40 do sec.XX, estiveram na primeira linha da reflexão crítica sobre os principais aspectos da economia, da sociedade, da cultura do seu tempo, e que obviamente integrava a critica ao espectáculo contemporâneo. Com base em conceitos marxistas, eles avançaram com algumas teses importantes para a compreensão do papel do impacto que alguns dos novos espectáculos, como o cinema e a televisão, tiveram nas massas. A industrialização da arte e da cultura, traz consigo a inevitável banalização e a perda da aura, esta uma tese que Walter Benjamin apresentou, como resultado da sua reflexão sobre as consequências da possibilidade técnica da reprodução das obras de arte. Este autor alertou também para o enorme fascínio e encantamento produtivo e libertador que as novas tecnologias oferecem às massas, ávidas de diversão. Adorno e Horkheimer analisaram a cultura mediática, apreendida como máquina que destrói a razão, que retira a autonomia ao pensamento, que estigmatiza, produtora de um estereótipo, resultado da imposição das indústrias culturais. Denunciaram o perigo da fusão da cultura com o espectáculo e de entretenimento industrializado e a sua tendência para servir como objecto de alienação, estandardização e manipulação das consciências pelo poder. Mais tarde Habermas analisou a transformação da cultura em bens de consumo, resultando numa atitude acrítica do público, transformando-se este num consumidor passivo destes bens culturais, ou seja uma cultura com tendência à integração social e à “despolitização das massas”eliminando a opinião e discussão politica e pública das coisas práticas.
A política de sedução espectacular, segundo Gilles Lipovetsky, oculta os problemas de fundo, substituindo a discussão dos problemas reais que se vão reflectir no seu cootidiano, por um discurso à volta do encanto das personagens, das imagens, dos comportamentos, da simpatia, em busca dos sentimentos e das afecções. Os cidadãos deixam de ter uma atitude de exigência, e são manipulados pelo espectáculo da política do show das imagens, do divertimento, do humor, do marketing político, das sondagens e das opiniões espectaculares que se vão pulverizando por toda a sociedade.
Guy Debord, um dos principais críticos e pensadores, integrado na Internacional Situacionista (1957-1972), escreveu um dos mais importantes textos críticos do século XX, “A Sociedade do Espectáculo”, um texto que assume uma posição crítica do espectáculo, não o espectáculo vulgar mas o espectáculo como real. Chama a actual sociedade de espectaculista , segundo este autor o que interessa hoje na sociedade não é o fim a atingir, mas apenas pretende realizar o percurso no sentido de si próprio. Debord, quando assume uma posição critica da sociedade, não se resume apenas ao espaço da arte, do entretenimento, da diversão, da cultura, da política ou o espaço público, ele denuncia a alienação generalizada introduzida por esta pseudo-cultura espectacular em todas as áreas da sociedade. O espectáculo para Debord, é muito mais do que a simples contemplação e prazer imediato.
Se o espectáculo é fascínio, representação, simulação e anunciação, para Debord ele é algo que não é imediato. O espectáculo é simulação porque é artificial, é representação porque não é momento, é fascínio porque desperta o desejo e as paixões. O espectáculo para Debord não é da ordem da visão, mas da vida, não é produto dos media, nem da publicidade, ele é acima de tudo uma forma de ver o mundo que se objectivou. O espectáculo dá uma imagem do real e é real.
No seu texto “ A sociedade do espectáculo” Guy Debord apresenta dois tipos de espectáculo, o concentrado, onde o autor diz que podemos identificar a ideologia de quem tem poder, quem tem os meios, característico dos estados totalitários, e o espectáculo difuso, que incita as massas a fazer uma livre escolha entre uma grande variedade de novas mercadorias, tendo como exemplo a americanização do mundo. Posteriormente no seu texto de “Comentários sobre a Sociedade do Espectáculo” Guy Debord apresenta um outro tipo de espectáculo a que dá o nome de espectáculo integrado e que consiste na fusão do difuso e do concentrado, com base no primeiro que segundo o autor foi o que mais se impôs, e que tem a tendência de vir a impor-se mundialmente e acabou por se misturar amplamente com toda a realidade. Este último, segundo Debord, caracteriza-se pela “renovação tecnológica incessante; fusão económico-estatal; segredo generalizado; o falso sem réplica; um presente perpétuo.”, o segundo tópico é aquele que mais se manifesta na actualidade.
Na actual sociedade, segundo Debord, tudo é transformado em espectáculo, é o espectáculo da política, é o espectáculo da arte, defende Debord, “O espectáculo em geral, como inversão concreta da vida…”. O espectáculo torna-se o factor de dominação económica, cultural, social e politica da actual sociedade. Mistura-se a cultura e a economia.
O mundo desdobra-se num mundo de imagens num pseudo mundo, numa construção. O espectador assiste passivamente e torna-se um consumidor acrítico de uma construção que ele realizou. Nós somos os espectadores de qualquer coisa que não reconhecemos mas aceitamos. Debord acredita que ou somos produtores ou espectadores. Um recebe outro produz imagens. Governados e governantes. Passivos e activos.
Para Guy Debord a representatividade espectacular deve ser substituída pela situação, “ela é o tempo e o momento”. Debord propõe a criação de rupturas permanentes, de situações, com a introdução de experiências novas nos sistemas. Criar novos aspectos vitais nas relações com a sociedade, a procura do efeito do imediatismo, da vida é o objectivo dos situacionistas. Dois dos conceitos e práticas mais importantes introduzidos pelos situacionistas e particularmente por Debord foram o conceito de deriva, de perder-se nos labirintos da cidade, e ao mesmo tempo criar novas situações onde o ser humano habitasse, este o conceito de desvio. Debord defende um pensamento que apela ao realismo, ao vitalismo, apela à situação do vivido, do real e do global. Propõe uma arte de afirmação de situações do presente. Debord afirma que o presente não pode ser apenas reduzido a uma estetização da vida.
Nenhum pensador
antes tinha afirmado de uma forma tão clara e explosiva que a única solução
seria recorrer ao vitalismo, à vida, ao momento e à situação como forma de ruptura. Debord recusa o pensamento da
negatividade. Debord vem dizer-nos que a sociedade do espectáculo é a
impossibilidade de se viver a realidade do quotidiano como uma experiência particular,
unitária e em liberdade, pressupondo uma imagem global. No entanto, Debord
deixa-nos algumas questões em aberto: será que é possível hoje ter uma imagem
global como antítese da realidade e que toda a representação implicará dizer
não à vida; será que alguém poderá escapar ao mundo e ao espectáculo.
Francisco Palma,
Janeiro 2004
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