Transmutação na obra de arte
Francisco Palma, 2003
“…a questão está em saber que tipos
de objectos trans-estéticos podem suceder a esta ruptura introduzida por
Duchamp, sem voltar a cair na nostalgia do objecto perdido da pintura”.
Jean Baudrillard
Marchel Duchamp deu os seus primeiros passos de artista, como pintor, nos inícios do século XX em Paris. Viveu e acompanhou com intensidade, uma época e um ambiente que foi marcada pela afirmação dos impressionistas, dos fauves e dos simbolistas e o inicio dos cubistas, por todos eles Duchamp se interessou e se aproximou, vindo no entanto a integrar mais tarde o grupo dos dadaistas. Revelou desde muito cedo ser uma personagem incómoda e irreverente, sendo ainda difícil classificar a sua obra artística. De forma enigmática deixou-nos a dúvida se a sua intenção foi provocar, divertir-se, criar rupturas, incomodar, ser irónico, jogador ou se pretendia realmente, como veio a ser, um premonitor consciente do percurso e preocupações que a arte levantou durante todo o século XX até aos nossos dias, ou seja o autor de um programa artístico que ainda está por cumprir. Talvez as duas coisas. Depois de lermos algumas das entrevistas, intervenções ou textos que nos deixou, fica-se com a sensação que pouca coisa aconteceu nas artes depois dele, pelo menos em termos de grandes paradigmas, principalmente se tivermos como referência a arte actual.
A ruptura com a arte retiniana e as novas reflexões sobre uma arte diferente da que se fazia até então, são uma constante, na actividade sua artística, através das suas obras e principalmente com as suas ideias e atitudes. Introduz novos conceitos, o nonsense e o acaso passam a ser algumas das linhas mestras do acto criativo em Duchamp. No entanto Duchamp também questiona algumas das ideias consideradas como verdades absolutas da arte, e uma delas é a ideia que se tinha até então, da preponderância do papel do artista na criação artística. Marchel Duchamp demarca-se desta ideia e tenta formular uma resposta diferente para esta questão, que é a de saber, qual o papel que o espectador e o artista desempenham no processo criativo.
Marchel Duchamp considera o julgamento, que em última instância, é realizada pelo espectador na obra de arte como obra-prima é aleatória e frágil, e é fruto de “uma moda baseada num gosto momentâneo” [iv]. Se por um lado, Marchel Duchamp, não concorda que o espectador através de uma apreciação de acaso ou de uma paixão passageira, acabe por conferir a posteridade à obra de arte, ele também não ignora a importância cada vez maior que o espectador tem em descobrir, revelar, validar e legitimar a obra de arte no meio artístico onde ela se insere. É neste contexto que o autor afirmou, de uma forma polémica, dar “tanta importância àquele que a olha como àquele que a faz”.[v]
Marchel Duchamp defende que o artista não controla o processo criativo[vi], afirmando mesmo não acreditar “na função criativa do artista…”. Diz que o artista“…é um homem como qualquer outro. A sua ocupação é fazer certas coisas...”, acrescentando ironicamente que “…o homem de negócios também faz certas coisas…”[vii]. O espectador ao decifrar e interpretar a obra enriquece o acto criativo. O acto criativo adquire um outro aspecto, quando o espectador experiencia o fenómeno, a que Duchamp chama de transmutação. A obra de arte é um aparato de signos que só o observador pode por em movimento[viii], portanto“é o espectador quem faz a obra”. O significado de uma obra de arte reside não na sua origem, mas na sua destinação.[ix]
Duchamp
sempre aceitou todas as interpretações que fizeram da sua obra, “mesmo as mais fantasiosas, pois
interessavam-lhe como criações das pessoas que as formulavam”[x]. A importância que
Duchamp conferia ao espectador, não é a de o convidar apenas a interpretar as
obras de arte mas também a completá-las e sobretudo a aceitá-las como arte. A
importância deste elemento no processo criativo, é importante não só a Duchamp
como teórico mas também ao Duchamp enquanto artista.
No fundo o que Duchamp pretende é colocar, como refere António Rodrigues, “a obra à procura do seu autor”[xi]. E ao propor esta nova formulação sobre o papel do espectador, Duchamp parece estar interessado, por um lado na distanciação em relação à obra de arte, e por outro lado na atitude que o espectador deve ter em relação a ela.
Duchamp ao considerar a importância do acaso factual na atitude do espectador, liberta a obra de arte da obrigatoriedade da construção de um sentido lógico, ou seja um anti-sentido, um nonsense, que muito interessava a Duchamp, podendo assim ser compreendido como um convite à participação do espectador, escolhendo a leitura que lhe interessar, de forma que as obras de arte se constituam como verdadeiras “obras abertas”[xii].
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